
Em tempos de crise, o ouro costuma disparar, uma vez que os investidores recorrem ao metal como refúgio. Em 2026 está a acontecer precisamente o contrário. Apesar da guerra entre os Estados Unidos e o Irão, o ouro chegou a perder, a meio de junho, praticamente todos os ganhos acumulados ao longo do ano. Depois de ter batido um máximo histórico em janeiro, perto dos 5.500 dólares por onça, o metal precioso negoceia agora à volta dos 4.300 dólares, uma queda que apanhou de surpresa quem esperava que a tensão geopolítica dos últimos meses valoriza-se ainda mais este ativo.
A explicação para este paradoxo está na inflação e nos juros. Com o conflito a bloquear o Estreito de Ormuz, os preços da energia dispararam e a inflação americana subiu para 4,2%, o valor mais alto em três anos. Isto afastou a hipótese de os bancos centrais cortarem as taxas de juro e abriu a porta a novas subidas. E juros mais altos são más notícias para o ouro. Ao contrário de uma obrigação ou de um depósito, o ouro não paga juros, pelo que perde atratividade sempre que as outras aplicações passam a render mais. A somar a isto, o clima de tensão reforçou o dólar e, como o ouro é cotado na moeda americana, um dólar forte costuma puxar a cotação para baixo.
Do lado dos investidores, tanto de retalho como institucionais, houve também uma saída significativa do mercado. Muitos venderam ouro, que tinha valorizado muito, para apostar no tema do momento, a inteligência artificial, com destaque para as ações tecnológicas e os fabricantes de chips; outros preferiram guardar o dinheiro em caixa, à espera de IPOs muito aguardadas, como as da SpaceX, Anthropic e da OpenAI.
Já os bancos centrais ficaram divididos. Países como a Índia, a Turquia e a Rússia venderam parte das suas reservas de ouro para financiar as suas despesas militares ou defender as suas moedas, enquanto outros, como o banco central chinês, aproveitaram a queda para continuar a comprar.
O que podemos esperar daqui para a frente? O fator mais impactante e imediato é o princípio de acordo de paz entre Washington e Teerão, cuja assinatura está prevista para esta sexta-feira, na Suíça, e que deverá reabrir o Estreito de Ormuz. Com o petróleo a recuar e a pressão sobre a inflação a aliviar, desaparece também boa parte daquilo que vinha a penalizar o ouro.
A médio e longo prazo, continuam a haver razões para algum otimismo. A desvalorização das moedas, a menor dependência do dólar a nível global e o papel histórico do ouro como refúgio e como forma de diversificar as carteiras, são fatores que poderão pesar a favor do metal.
