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Estamos numa bolha de inteligência artificial?

escrito por MoneyLab 12/06/2026

Uma das perguntas que domina as conversas sobre mercados financeiros hoje em dia é: “Estamos ou não numa bolha de inteligência artificial?”.
Por um lado, há quem veja paralelos preocupantes com a euforia tecnológica do início dos anos 2000. Por outro, há quem insista que há boas razões para acreditar que por enquanto ainda não estamos. A verdade é que existem argumentos sólidos dos dois lados, e percebe-los é, talvez, mais útil do que tentar adivinhar o desfecho.

Quem olha para os mercados atualmente e indica que existe uma bolha, muita vezes menciona o chamado ciclo do capital. Um padrão que se repete ao longo da história. Ou seja, quando uma nova tecnologia entusiasmante aparece, atrai bastante dinheiro, a oferta dispara (neste caso, mais centros de dados, mais chips, mais infraestrutura) e, mais cedo ou mais tarde, a capacidade instalada ultrapassa a procura. Quando isso acontece, os preços caem e o retorno fica abaixo do esperado.
Há também um argumento histórico difícil de ignorar. Desde os caminhos-de-ferro, à eletricidade, ao automóvel, passando pela própria internet, praticamente nenhuma grande tecnologia escapou a uma bolha pelo caminho.

Nos últimos meses, o comportamento dos investidores e de algumas empresas reforça também o desconforto. Quando a Allbirds, uma marca de sapatos, anunciou que ia passar a fornecer infraestrutura para IA, as suas ações dispararam 500%, o tipo de reação que costuma acontecer no topo de um ciclo de investimento, não a meio de um crescimento saudável.
No setor dos chips, a SanDisk valorizou mais de 4.100% num ano e a Micron cerca de 800%, movimentos longe do que se considera normal. E um dos casos mais alarmantes é o da OpenAI, que acumula mais de 1 bilião de dólares em compromissos financeiros futuros, mas gera apenas entre 20 e 25 mil milhões de receita anual.

A juntar a isto, gigantes como a Meta, a Alphabet (Google), a Amazon e a Microsoft, anunciaram que em 2026 iriam gastar mais de 100 mil milhões de dólares só em centros de dados e IA.
Sendo que a Google e a Meta, por exemplo, recorreram a dívida (50 e 30 mil milhões, respetivamente) para financiar parte deste investimento, acrescentando uma camada extra de risco, caso os investimento não gerem os retornos esperados.

Mas existem contra-argumentos que são precisos ter em conta também. Desta vez, as receitas são reais e a maior parte deste investimento continua a ser pago com o dinheiro que estas empresas geram, e não com dívida.
Na bolha das dot-com, muitas empresas não tinham sequer ainda clientes a pagar pelos seus serviços/produtos. Hoje é diferente. O ChatGPT tem cerca de 900 milhões de utilizadores. Para comparar, a internet no início dos anos 2000 tinha à volta de 360 milhões de utilizadores em todo o mundo. Ou seja, as pessoas e as empresas estão, de facto, a pagar por esta nova tecnologia, e estima-se que a Anthropic hoje já fature entre 30 a 50 mil milhões de dólares por ano, quando há cerca de 2 anos faturava apenas $80 milhões.

A isto, acresce que a oferta não pode crescer tão depressa quanto a procura, e a maior limitação de todas é a energia. Sem eletricidade, não há centros de dados a funcionar, e esse travão pode até ser saudável.

Por último, as avaliações em bolsa são outro ponto a favor de quem acredita que desta vez é diferente. É verdade que há ações individuais com avaliações bastante “esticadas”, mas no geral nada tem a ver com o ano 2000. O índice tecnológico Nasdaq chegou a ser negociado, nessa altura, a 60x os lucros esperados. Hoje está perto de 24x.
Olhando para o rácio P/E, tendo em conta os lucros já realizados, o contraste é ainda mais significativo. 200x em março de 2000, contra cerca de 30x atualmente.

A leitura mais equilibrada é que ainda não chegámos a território de bolha generalizada, o S&P 500, a cerca de 21x os lucros esperados, está longe disso, ainda que existam segmentos do mercado que vale a pena evitar.

Para os investidores, porém, a conclusão é um pouco anticlímax… a verdade é que não há muito a fazer de diferente. Tentar adivinhar o topo do mercado raramente resulta. Faz mais sentido manter o rumo definido, investir de forma faseada ao longo do tempo e, sobretudo, tomar decisões com base no plano financeiro pessoal e não em previsões de bolhas. Quem se manteve investido durante a bolha das dot-com e aguentou a recuperação, acabou por ter retornos positivos. Quem saiu mais prejudicado foi quem precisou de levantar o dinheiro no pior momento.
No fim, saber se estamos ou não numa bolha importa menos do que saber se somos, de facto, investidores de longo prazo.

Estamos numa bolha de inteligência artificial? was last modified: Junho 19th, 2026 by MoneyLab

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