
Uma das perguntas que domina as conversas sobre mercados financeiros hoje em dia é: “Estamos ou não numa bolha de inteligência artificial?”.
Por um lado, há quem veja paralelos preocupantes com a euforia tecnológica do início dos anos 2000. Por outro, há quem insista que há boas razões para acreditar que por enquanto ainda não estamos. A verdade é que existem argumentos sólidos dos dois lados, e percebe-los é, talvez, mais útil do que tentar adivinhar o desfecho.
Quem olha para os mercados atualmente e indica que existe uma bolha, muita vezes menciona o chamado ciclo do capital. Um padrão que se repete ao longo da história. Ou seja, quando uma nova tecnologia entusiasmante aparece, atrai bastante dinheiro, a oferta dispara (neste caso, mais centros de dados, mais chips, mais infraestrutura) e, mais cedo ou mais tarde, a capacidade instalada ultrapassa a procura. Quando isso acontece, os preços caem e o retorno fica abaixo do esperado.
Há também um argumento histórico difícil de ignorar. Desde os caminhos-de-ferro, à eletricidade, ao automóvel, passando pela própria internet, praticamente nenhuma grande tecnologia escapou a uma bolha pelo caminho.
Nos últimos meses, o comportamento dos investidores e de algumas empresas reforça também o desconforto. Quando a Allbirds, uma marca de sapatos, anunciou que ia passar a fornecer infraestrutura para IA, as suas ações dispararam 500%, o tipo de reação que costuma acontecer no topo de um ciclo de investimento, não a meio de um crescimento saudável.
No setor dos chips, a SanDisk valorizou mais de 4.100% num ano e a Micron cerca de 800%, movimentos longe do que se considera normal. E um dos casos mais alarmantes é o da OpenAI, que acumula mais de 1 bilião de dólares em compromissos financeiros futuros, mas gera apenas entre 20 e 25 mil milhões de receita anual.
A juntar a isto, gigantes como a Meta, a Alphabet (Google), a Amazon e a Microsoft, anunciaram que em 2026 iriam gastar mais de 100 mil milhões de dólares só em centros de dados e IA.
Sendo que a Google e a Meta, por exemplo, recorreram a dívida (50 e 30 mil milhões, respetivamente) para financiar parte deste investimento, acrescentando uma camada extra de risco, caso os investimento não gerem os retornos esperados.
Mas existem contra-argumentos que são precisos ter em conta também. Desta vez, as receitas são reais e a maior parte deste investimento continua a ser pago com o dinheiro que estas empresas geram, e não com dívida.
Na bolha das dot-com, muitas empresas não tinham sequer ainda clientes a pagar pelos seus serviços/produtos. Hoje é diferente. O ChatGPT tem cerca de 900 milhões de utilizadores. Para comparar, a internet no início dos anos 2000 tinha à volta de 360 milhões de utilizadores em todo o mundo. Ou seja, as pessoas e as empresas estão, de facto, a pagar por esta nova tecnologia, e estima-se que a Anthropic hoje já fature entre 30 a 50 mil milhões de dólares por ano, quando há cerca de 2 anos faturava apenas $80 milhões.
A isto, acresce que a oferta não pode crescer tão depressa quanto a procura, e a maior limitação de todas é a energia. Sem eletricidade, não há centros de dados a funcionar, e esse travão pode até ser saudável.
Por último, as avaliações em bolsa são outro ponto a favor de quem acredita que desta vez é diferente. É verdade que há ações individuais com avaliações bastante “esticadas”, mas no geral nada tem a ver com o ano 2000. O índice tecnológico Nasdaq chegou a ser negociado, nessa altura, a 60x os lucros esperados. Hoje está perto de 24x.
Olhando para o rácio P/E, tendo em conta os lucros já realizados, o contraste é ainda mais significativo. 200x em março de 2000, contra cerca de 30x atualmente.
A leitura mais equilibrada é que ainda não chegámos a território de bolha generalizada, o S&P 500, a cerca de 21x os lucros esperados, está longe disso, ainda que existam segmentos do mercado que vale a pena evitar.
Para os investidores, porém, a conclusão é um pouco anticlímax… a verdade é que não há muito a fazer de diferente. Tentar adivinhar o topo do mercado raramente resulta. Faz mais sentido manter o rumo definido, investir de forma faseada ao longo do tempo e, sobretudo, tomar decisões com base no plano financeiro pessoal e não em previsões de bolhas. Quem se manteve investido durante a bolha das dot-com e aguentou a recuperação, acabou por ter retornos positivos. Quem saiu mais prejudicado foi quem precisou de levantar o dinheiro no pior momento.
No fim, saber se estamos ou não numa bolha importa menos do que saber se somos, de facto, investidores de longo prazo.
