Poucos dias depois de Washington e Teerão terem anunciado um acordo provisório que trouxe algum alívio aos mercados, surgiu um primeiro entrave. As conversações previstas de acontecer na Suíça acabaram por ser canceladas. A Casa Branca confirmou hoje que o vice-presidente JD Vance já não viajaria para o encontro, apontando questões logísticas por resolver. Foi um lembrete de que transformar um entendimento inicial numa paz duradoura será tudo menos simples.
O recuo aconteceu apenas um dia depois de Donald Trump e do presidente iraniano Masoud Pezeshkian terem assinado um memorando de entendimento com 14 pontos, que prevê o prolongamento do cessar-fogo, incluindo no Líbano, e a reabertura do Estreito de Ormuz. Segundo o Financial Times, as conversações foram canceladas depois de Israel ter lançado uma nova vaga de ataques aéreos contra o Líbano, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a prometer atingir o Hezbollah “com toda a força”. Horas mais tarde, porém, foi anunciado um novo cessar-fogo entre as partes, e o preço do petróleo, que tinha subido, voltou a recuar.
Esta agitação no Médio Oriente vem somar-se a uma semana já de si exigente para os investidores. Na quarta-feira, as atenções viraram-se para a estreia de Kevin Warsh à frente da Reserva Federal norte-americana. Como esperado, a Fed manteve os juros entre os 3,50% e os 3,75%, mas foi a forma de comunicar que apanhou os investidores de surpresa. Warsh decidiu não partilhar as habituais “pistas” sobre os próximos passos do banco central, optando por um comunicado mais curto. A intenção poderá ser evitar comprometer-se cedo demais, mas o efeito prático foi deixar o mercado com poucas certezas sobre como a Fed irá agir no futuro, e quando há menos clareza, costuma haver maior volatilidade.
A reação foi imediata. O índice S&P 500 caiu 1,2% no dia, embora essa queda tenha sido rapidamente revertida no dia seguinte, assim que o foco regressou à inteligência artificial.
Mais revelador foi o comportamento do mercado da obrigacionista. Os juros das obrigações do Tesouro norte-americano subiram, sobretudo nos prazos mais curtos. A taxa a 2 anos atingiu os 4,15%, o valor mais alto deste ano. Por agora, o cenário mais provável é que a Fed mantenha os juros estáveis em 2026, preferindo conviver com uma inflação ainda elevada em vez de aumentar as taxas de juro mas, com um comité bastante dividido e uma comunicação menos transparente, a incerteza hoje é maior.
