
O dólar norte-americano está a atravessar um período de desvalorização, acumulando uma queda significativa desde o início de 2025 (cerca de -11%, face a um cabaz de outras moedas internacionais). Olhando para o gráfico de longo prazo, que recua até 1970, percebe-se, no entanto, que esta não é uma situação inédita. Ao longo de mais de 50 anos, o dólar alternou entre períodos de força e fraqueza, com subidas acentuadas nos anos 80 e após a crise financeira de 2008, seguidas de correções. No essencial, trata-se de um ativo cíclico, mas tem permanecido estruturalmente dominante no sistema financeiro global.
Para os investidores europeus, uma queda do dólar tem impacto direto na rentabilidade dos seus ativos cotados em USD. Quem investe em ações norte-americanas, como acontece com muitos portugueses que aplicam os seus investimentos (por exemplo em empresas do S&P 500), pode ver os seus ganhos reduzidos quando converte os resultados para euros. Mesmo que as bolsas dos EUA subam, uma desvalorização dólar “elimina” parte da rentabilidade.
A recente fraqueza do dólar também reacendeu uma questão antiga. Poderá a China substituir os Estados Unidos no papel de principal moeda de reserva mundial? O Presidente chinês, Xi Jinping, voltou a defender um renminbi mais forte e com maior influência global. Contudo, a realidade é que o dólar continua a representar cerca de 57% das reservas cambiais mundiais, enquanto a moeda chinesa representa menos de 2%. Além disso, para assumir esse papel, Pequim teria de abrir totalmente o seu sistema financeiro, permitir a livre circulação de capitais e aceitar uma moeda flutuante, ou seja, mudanças profundas que colidem com o atual modelo económico chinês.
Apesar das preocupações com a elevada dívida norte-americana, tensões comerciais/geopolíticas e instabilidade política nos EUA, os mercados financeiros continuam a demonstrar confiança. A inflação está controlada, as taxas de juro tendo vindo a diminuir e os investidores fora dos EUA continuam a comprar ativos americanos. A médio/longo prazo, é possível que o mundo caminhe para um sistema mais “multipolar”, com o renminbi a ganhar algum espaço. Mas uma substituição rápida do dólar parece improvável. Para já, a história sugere prudência, as moedas oscilam, os ciclos repetem-se e o dólar, embora mais fraco, continua a ser o pilar central das finanças globais.
