
As ações da Moderna dispararam 177% esta quarta-feira, para cerca de 174 dólares, na maior subida percentual diária de uma ação do S&P 500 nos últimos 25 anos. O salto seguiu-se ao anúncio, feito em conjunto com a Merck, de que o tratamento contra o cancro atingiu os principais objetivos num ensaio clínico de fase 3 em doentes com melanoma, a última etapa antes de um pedido de aprovação junto dos reguladores. A Merck valorizou 12,6% na mesma sessão e, somadas, as duas empresas acrescentaram mais de 50 mil milhões de dólares de valor de mercado num único dia. O entusiasmo alastrou-se ao resto do setor farmacêutico.
O tratamento, não é uma vacina no sentido tradicional. Em vez de prevenir uma doença, é administrado a doentes que já removeram um tumor por cirurgia, para reduzir o risco de a doença regressar. E é feito à medida de cada pessoa. A partir de uma amostra do próprio tumor, os investigadores identificam as mutações específicas daquele cancro e usam tecnologia de mRNA, a mesma que esteve na origem das vacinas contra a covid-19, para que o sistema imunitário reconheça e ataque essas mutações. No ensaio, que envolveu 1.137 doentes, a combinação deste tratamento com o Keytruda, o medicamento oncológico da Merck, reduziu o risco de o cancro se propagar a outras zonas do corpo.
Para ambas as empresas, o momento é oportuno. A Moderna procurava há vários anos uma nova fonte de receitas depois das vendas das vacinas contra a covid-19 terem diminuído, e os resultados abrem-lhe a porta a um mercado de oncologia avaliado em mais de 240 mil milhões de dólares. Já a Merck enfrenta em 2028 a perda de exclusividade/patente do Keytruda, o medicamento mais vendido do mundo e a maior fonte de receitas do grupo.
Falta, ainda assim, o essencial. As duas empresas não divulgaram os números concretos do ensaio, que serão apresentados numa conferência médica internacional e ainda não foram sujeitos a revisão independente. As conversas com as agências reguladoras deverão arrancar nos próximos meses e Stéphane Bancel, CEO da Moderna, admite que o tratamento possa chegar aos doentes em 2027. Em paralelo, decorrem nove outros ensaios que testam a mesma abordagem em cancros do pulmão, da bexiga e do rim. Ensaios esses que irão ditar se esta abordagem serve apenas o melanoma ou muito mais do que isso.
