
A cerca de um mês das eleições intercalares nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, o S&P 500 acumula uma valorização próxima de 30% desde o início do segundo mandato de Donald Trump. O desempenho supera largamente a média histórica, que se situa perto de 5% para o mesmo período do mandato presidencial, com base em dados desde 1928. A performance durante este mandato, até ao momento, não foi linear. Nos primeiros meses, o índice chegou a acumular perdas próximas de 15%, antes de recuperar ao longo do segundo ano.
A subida das ações foi sustentada sobretudo pelo crescimento dos lucros das empresas ligadas à inteligência artificial. Contribuíram também os estímulos orçamentais e uma Reserva Federal (Fed) que, depois de cortar as taxas de juro três vezes em 2025, manteve-as no intervalo entre 3,50% e 3,75% até à subida na última reunião de há duas semanas. Parte da melhoria dos resultados reflete, no entanto, fatores contabilísticos. O investimento em centros de dados é registado como custo de forma gradual, através de amortizações ao longo de vários anos, o que atenua o seu impacto imediato nas contas. Além disso, algumas das maiores tecnológicas têm contabilizado ganhos com a valorização das suas participações em empresas não cotadas, como a OpenAI e a Anthropic.
No mercado obrigacionista, a tendência tem sido de desvalorização. Na terça-feira, a taxa de juro das obrigações do Tesouro norte-americano a 30 anos superou os 5,6%, o valor mais elevado desde junho de 2002, e a das obrigações a 10 anos ultrapassou os 5,29%. A subida reflete a combinação de inflação elevada, défices orçamentais persistentes e preços do petróleo pressionados pelo conflito no Médio Oriente.
Os dados do índice de preços PCE, o indicador de inflação preferido da Fed, divulgados esta quarta-feira, mostraram um abrandamento em agosto. A inflação geral recuou de 3,7% para 3,4% e a subjacente, que exclui energia e alimentação, desceu de 3,3% para 3%, abaixo das estimativas dos analistas. Após a divulgação, a probabilidade atribuída pelo mercado a uma subida dos juros em outubro recuou para cerca de 35%, com o próximo aumento a ser antecipado para a reunião de dezembro.
As eleições intercalares podem alterar a política orçamental, um dos fatores que têm pressionado os juros. Os republicanos controlam atualmente as duas câmaras do Congresso por margens estreitas, mas os mercados de previsão atribuem aos democratas uma probabilidade de cerca de 90% de conquistarem a Câmara dos Representantes e de 63% no Senado. Uma maioria democrata em pelo menos uma das câmaras obrigaria os dois partidos a negociar qualquer nova medida orçamental.
A nível setorial, o financeiro e a saúde estão entre os mais expostos ao resultado das eleições. O primeiro por ser mais sensível a alterações regulatórias e o segundo pela possibilidade de um acordo orçamental incluir o alargamento da cobertura dos seguros de saúde.
