Considero-me um investidor — não apenas em ativos financeiros, mas no sentido mais amplo da palavra. Gosto de avaliar oportunidades, empresas, imóveis, ideias, modelos de negócio, geografias e alternativas de financiamento.
É com esse olhar que observo a inteligência artificial. Acredito que estamos perante uma transformação potencialmente comparável às grandes mudanças provocadas pelo Renascimento ou pela Revolução Industrial. A combinação entre inteligência, criatividade e experiência humanas e a IA poderá alterar profundamente a forma como produzimos, trabalhamos e vivemos.
Vamos alcançar as estrelas? Prolongar radicalmente a vida? Tornar-nos mais eficientes na utilização dos recursos? Ou ser ultrapassados por novas formas de inteligência?
Ninguém sabe. Mas o impacto poderá ser extraordinário.
Isso significa que devemos investir agora nas empresas que lideram esta revolução?
O impacto de uma tecnologia na sociedade é uma coisa; o retorno obtido pelos seus investidores é outra.
A internet transformou o mundo, criando produtos, serviços e necessidades que antes nem imaginávamos. Ainda assim, durante a bolha tecnológica, muitas empresas foram negociadas a avaliações excessivas. Algumas tornaram-se negócios extraordinários; outras nunca concretizaram as expectativas e acabaram por desaparecer.
A tecnologia estava certa. O preço pago por muitas empresas é que estava errado.

A inteligência artificial poderá estar a atravessar um momento semelhante. O seu potencial é inegável e algumas empresas geram já receitas significativas. Mas uma empresa excelente não é automaticamente um excelente investimento. Tudo depende do preço, das expectativas nele incorporadas e da capacidade de transformar crescimento em fluxos de caixa sustentáveis.
Importa, por isso, considerar os riscos: o custo e a disponibilidade da energia; a necessidade de chips, memória e centros de dados; os riscos regulatórios, operacionais e de segurança; a dimensão real do mercado; a pressão futura sobre as margens; e o enorme volume de capital necessário para financiar esta expansão.
Estas dúvidas não me levam a excluir o investimento em empresas inovadoras. Levam-me a moderar a exposição e a respeitar os princípios de gestão do risco.
Reconhecer o potencial de uma tecnologia não nos obriga a aceitar qualquer avaliação. E participar numa tendência não exige apostar nela todo o património.
Quando os mercados sobem, é fácil confundir retorno com competência. Por isso, devemos procurar argumentos que contrariem as nossas convicções, compreender a alavancagem dos instrumentos escolhidos, diversificar e controlar o FOMO — o medo de ficar de fora.
Haverá sempre novas oportunidades. O importante não é participar em todas, mas preservar a capacidade de aproveitar aquelas que realmente compreendemos.
Este corolário não se aplica apenas diretamente às empresas inovadoras, mas faz-me também pensar nos efeitos de algum constrangimento de liquidez, nomeadamente sobre a liquidez disponível para eventual saída em ativos privados
Como recordo a mim próprio:
KISS — Keep It Simple, Stupid.
Não significa pensar menos. Significa compreender aquilo em que investimos, não pagar qualquer preço pelo crescimento, limitar as perdas possíveis e manter a disciplina.
Porque, nos investimentos, sobreviver à euforia é tão importante como reconhecer a inovação.
