O Banco Central Europeu decidiu esta quinta-feira subir a taxa de juro dos depósitos em 0,25%, para 2,5%, numa decisão já amplamente antecipada pelos investidores. Esta subida chega poucos dias depois de se saber que a inflação na zona euro acelerou para 3,3% em agosto, com os preços da energia a aumentarem 14,3%. Nas últimas semanas, as yields das obrigações dos Estados europeus também aumentaram de forma acentuada, atingindo máximos de várias décadas.
Christine Lagarde avisou que o conflito entre os Estados Unidos e o Irão e a evolução recente da guerra na Ucrânia deverão manter a inflação acima da meta de 2% durante um período prolongado. Apesar de reconhecer que a economia da zona euro tem mostrado uma resistência maior do que a esperada, a presidente do BCE identificou o choque nos preços da energia e as tensões comerciais como riscos para o crescimento europeu. O Conselho de Governadores do BCE descreveu as perspetivas como muito incertas, com riscos de inflação mais alta e de crescimento mais fraco. Para a inflação subjacente, que exclui energia e alimentos, a instituição projeta 2,5% em 2026, 2,6% em 2027 e 2,3% em 2028, e mantém a abordagem “reunião a reunião”.
Do outro lado do Atlântico, Donald Trump, prometeu pagar 5.000 dólares a cada cidadão adulto norte-americano caso os republicanos conquistem a Câmara dos Representantes e o Senado nas eleições intercalares de novembro. O anúncio foi feito numa convenção do partido republicano, onde o Presidente indica que este pagamento é consequência da força económica do país. As sondagens apontam atualmente para uma vitória democrata na Câmara dos Representantes, um resultado que dificultaria a agenda legislativa de Trump e funcionaria como um teste à opinião pública sobre este seu segundo mandato.
Esta promessa levanta dúvidas de como será financiada. Estima-se que o pagamento deste “dividendo” custe mais de 1 bilião de dólares, um valor semelhante aos 1,27 biliões já gastos este ano fiscal apenas com juros da dívida e aos 1,36 biliões destinados à defesa em 2026. O défice federal aproxima-se dos 1,8 biliões no ano fiscal em curso, cerca de 5,8% do PIB, e a dívida pública representava 122,6% do PIB no primeiro trimestre.
O anúncio surge, porém, no pior momento possível para os mercados de dívida norte-americanos. A taxa de rentabilidade (yield) das obrigações do Tesouro a dez anos subiu esta semana para 4,92%, o nível mais alto desde outubro de 2023, enquanto a dívida a 30 anos negoceia acima de 5,34%. A pressão vem de várias frentes em simultâneo. A subida do preço do petróleo provocada pela guerra no Irão, que alimenta a inflação e reforça a expectativa de novas subidas de juros por parte da Reserva Federal e um volume recorde de emissão de dívida por empresas, com as tecnológicas ligadas à inteligência artificial a colocarem no mercado mais de 1,5 biliões de dólares de dívida. Mas cada aumento adicional nas yields soberanas, encarece o pagamento dos juros da dívida, e reduz o margem orçamental para promessas como a de Trump.
