
O preço do gás natural na Europa, medido pelo TTF holandês, o índice de referência do mercado europeu, ultrapassou esta semana os 80 euros por megawatt-hora, o valor mais alto desde dezembro de 2022 e uma subida de cerca de 150% face ao mesmo período do ano passado. No mercado do petróleo, o barril de Brent negociou acima dos 100 dólares, um máximo desde maio e um aumento próximo de 55% nos últimos doze meses. A origem é a mesma nos dois casos. O conflito no Médio Oriente continua a perturbar o tráfego marítimo no estreito de Ormuz, e o Irão afirmou ter atingido mais de uma dezena de navios na região e avisou que intensificará os ataques caso os Estados Unidos mantenham as operações militares em território iraniano.
Ao risco geopolítico junta-se um problema de logístico. A Europa chegará em breve ao fim do verão, período em que enche as reservas de gás para o inverno, mas está neste momento com as reservas bem abaixo do habitual, perto de 67% da capacidade, quando a média para esta altura do ano ronda os 83%. Ao mesmo tempo, trabalhos de manutenção na Noruega e a quebra dos fluxos vindos da Argélia para Itália estão a reduzir o gás que chega à Europa, o que obriga os países europeus a competir com os compradores asiáticos por cada carregamento de gás natural liquefeito disponível. A Agência Internacional da Energia já veio pedir a criação de reservas estratégicas, contratos de fornecimento mais flexíveis e maior cooperação entre países para lidar com eventuais faltas de gás nos próximos meses.
A energia mais cara já se nota nos preços e nos mercados financeiros. A inflação na zona euro acelerou para 3,3% em agosto, com a energia a ser o principal responsável. Os investidores têm vendido dívida pública europeia, receando que a inflação e os juros permaneçam elevados durante mais tempo, e a subida das yields encarece o financiamento dos Estados sempre que renovam a dívida. Neste contexto, o Banco Central Europeu decidiu na quinta-feira subir as três taxas de juro diretoras em 0,25%, colocando a taxa dos depósitos em 2,50%, com efeitos a partir de 16 de setembro. É o segundo aumento do ano e a presidente do BCE, Christine Lagarde, justificou-o com a persistência das pressões inflacionistas geradas pelo conflito, admitindo que a inflação deverá manter-se acima do objetivo de 2% durante um período prolongado.
A atenção passa agora a Reserva Federal norte-americana que tem reunião marcada na próxima quarta-feira. A taxa diretora está no intervalo entre 3,50% e 3,75%, e os mercados, ao dia de hoje, atribuem uma probabilidade de 72% para um aumento de 0,25% das taxas, uma inversão face ao consenso do início do ano, que apontava para cortes. A solidez dos últimos dados do mercado de trabalho norte-americano reforçam a hipótese de subida. Com 162 mil empregos criados em agosto e o desemprego nos 4,1%, os responsáveis da Fed têm margem para responder à inflação, com menor receio de penalizar o emprego.
Para as famílias portuguesas, o efeito prático chega sobretudo por duas vias. A primeira é a fatura energética, que tende a refletir com algum atraso os preços grossistas. A segunda é a Euribor, que acompanha as expectativas para as taxas do BCE e determina a prestação de quem tem crédito à habitação com taxa variável ou mista.
