Vivemos um momento aparentemente paradoxal nos mercados financeiros. Por um lado, a incerteza geopolítica mantém-se em níveis historicamente elevados, com destaque para o reacender das tensões entre os Estados Unidos e o Irão. Por outro lado, os mercados financeiros parecem encarar estes acontecimentos com uma serenidade surpreendente, situando-se igualmente perto dos máximos históricos.
Um dos melhores indicadores deste aparente optimismo é o índice VIX, frequentemente utilizado como termómetro do sentimento dos investidores. Apesar do contexto global desafiante, o VIX permanece (muito) abaixo da sua média histórica de longo prazo. Em simultâneo, os prémios de risco das acções e das obrigações de dívida privada continuam próximos de mínimos históricos. Em termos simples, os investidores parecem acreditar que os principais riscos estão controlados.
Esta confiança assenta, essencialmente, em duas grandes premissas. A primeira é a expectativa de que a inflação normalize e regresse rapidamente para níveis compatíveis com os objectivos dos bancos centrais, permitindo a manutenção das taxas de juro em patamares favoráveis ao crescimento económico. A segunda é a convicção de que os investimentos massivos em IA irão gerar retornos muito significativos nos próximos anos.
Contudo, esta visão consensual também encerra riscos. Os principais índices accionistas apresentam hoje níveis de concentração pouco habituais. No caso do S&P-500, os sectores dos semicondutores e do hardware representam cerca de 28% do índice, tornando-o especialmente dependente do sucesso continuado do ciclo tecnológico e da IA. Quando uma parte tão relevante da performance do mercado depende de um número reduzido de sectores e empresas, a margem para desilusões tende a aumentar.
Importa recordar que os últimos anos foram extraordinariamente positivos para os investidores. Períodos de desempenho tão robusto tendem, naturalmente, a reforçar a confiança dos investidores e a criar a percepção de que as tendências recentes se irão prolongar indefinidamente. No entanto, a história dos mercados ensina-nos o contrário: nenhum tema de investimento permanece dominante para sempre.
Perante este cenário, é compreensível que muitos investidores sintam desconforto. A conjugação de riscos geopolíticos, avaliações exigentes e elevada concentração sectorial pode gerar a tentação de adiar decisões de investimento ou mesmo reduzir significativamente a exposição aos mercados. Porém, raramente esta é a melhor estratégia (Figura n.º 1).
A alternativa mais prudente passa por permanecer investido, mas com uma atenção redobrada à diversificação efectiva das carteiras (atenção à concentração sectorial dos ETF!). Existe vida para além dos semicondutores e das grandes tecnológicas. Sectores como a indústria, energia, infraestruturas e saúde continuam a apresentar fundamentais sólidos, perspectivas de crescimento atractivas e, sobretudo, potencial para reduzir a dependência de um único tema de mercado.
Figura n.º 1 – O Risco de market timing
Rendibilidade hipotética de $10.000 investidos entre 1996-2025

Fonte: Ned Davis Research, Morningstar and Hartford Funds. Rendibilidades passadas não constituem garantia de rendibilidades futuras.
