
Quando se fala em mercados “caros” ou “baratos”, um dos indicadores mais citados pelos economistas é o rácio CAPE (Cyclically Adjusted Price-to-Earnings). De forma simples, este rácio indica-nos quanto está o investidor a pagar hoje pelos lucros das empresas. Ao contrário do P/E tradicional, que compara o preço das ações com os lucros mais recentes, o CAPE usa a média dos lucros dos últimos 10 anos, suavizando os altos e baixos do ciclo económico.
Em períodos de crise, como em 2008, os lucros das empresas podem cair abruptamente, fazendo disparar o rácio P/E tradicional mesmo que os preços das ações também tenham caído. O CAPE tenta evitar essa distorção ao olhar para uma década inteira de resultados, oferecendo uma visão mais estável. Historicamente, o valor do CAPE do S&P 500 é, em média, 20,6.
Isto significa que, em condições “normais”, os investidores pagam cerca de 20 dólares por cada dólar de lucros anuais médios das empresas.
O gráfico ajuda a colocar o momento atual em perspetiva. Hoje, o CAPE do mercado americano ronda valores próximos de 40, muito acima da sua média histórica e apenas comparável a períodos como o final da década de 90. Isto não significa, por si só, que uma queda esteja iminente, mas indica que o mercado está a ser negociado a preços elevados face ao seu passado. Atualmente, este valor elevado, indica que as expectativas sobre o crescimento futuro das empresas são muito otimistas e já estão refletidas nos preços.
Para os investidores, o CAPE deve ser lido como um sinal de contexto e não como um indicador de compra ou venda. Um rácio elevado sugere que os retornos futuros, a longo prazo, tendem a ser mais modestos do que em períodos em que o mercado estava barato, mas não diz nada sobre o que pode acontecer nos próximos meses ou mesmo nos próximos anos. Os mercados podem permanecer caros durante muito tempo, sobretudo se os lucros continuarem a crescer e se a economia se mantiver dinâmica.
Importa também reconhecer as limitações desta métrica. O mercado atual é muito diferente do de há 40 ou 50 anos, hoje em dia tem um peso muito maior nas empresas tecnológicas, modelos de negócio com maiores economias de escala e margens operacionais mais elevadas. Além disso, o CAPE não tem em conta o nível das taxas de juro, que quando são baixas tendem a justificar avaliações mais altas no mercado acionista. Por fim, ao usar uma média de 10 anos dos lucros das empresas, o rácio reage lentamente a mudanças estruturais, como ganhos de produtividade associados à inovação ou à inteligência artificial.
Para uma boa gestão dos investimentos, continua a ser mais importante manter a disciplina, a diversificação e uma visão de longo prazo, em vez de tentar adivinhar o momento exato do mercado.
