Os EUA começaram em poucos dias dois conflitos económicos. Depois do colapso das negociações comerciais na sexta-feira, entraram em vigor no sábado tarifas de 50% sobre cerca de 20 mil milhões de dólares de produtos canadianos, aproximadamente 5% de tudo o que o Canadá vende aos Estados Unidos, atingindo bens tão diversos como vinho, mobiliário, cimento e vestuário. A resposta foi imediata, e o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, anunciará tarifas equivalentes, a partir de 8 de setembro, afirmando que o país foi “atacado”. As medidas canadianas deverão incidir sobre aço, produtos lácteos, eletrodomésticos, equipamento agrícola, pasta e papel e eletrónica.
O risco, neste momento, é de uma escalada sucessiva. Donald Trump já ameaçou duplicar para 50% as tarifas sobre automóveis canadianos. A assimetria entre as duas economias explica por que razão os mercados norte-americanos reagiram com relativa indiferença. O Canadá depende dos Estados Unidos para quase 70% das suas exportações. Brian Mulberry, estratega-chefe de mercados da Zacks Investment Management, indica que as tarifas representam uma desacelaração de 0,5% a 1% nos lucros do S&P 500, contra um impacto negativo de 5% a 8% no índice canadiano.
O segundo conflito teve como alvo o Irão. Ontem, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou uma nova vaga de sanções destinadas a isolar o Irão, dirigidas a entidades internacionais que facilitem o comércio iraniano nas áreas do transporte marítimo, petróleo, criptoativos, ouro e aviação. Foram sancionadas cerca de 60 entidades e indivíduos, abrangendo operadores nos Emirados Árabes Unidos, Hong Kong, China, Singapura, Suíça e Europa. A ameaça central é a exclusão do sistema do dólar.
Os Emirados, segundo maior parceiro comercial iraniano, já cortaram grande parte das relações comerciais com Teerão; quanto à China, destino de cerca de 80% das exportações petrolíferas iranianas antes da guerra, Bessent garantiu que nenhum país está isento das sanções norte-americanas.
Esta cautela não é acidental, Pequim mantém uma trégua comercial frágil com Washington e Xi Jinping tem visita marcada aos Estados Unidos no próximo mês.
A reação dos mercados foi contida. O Brent recuou 2,5% na segunda-feira, para cerca de 92 dólares por barril, enquanto as bolsas europeias, hoje, abriram em alta, com Londres, Paris e Frankfurt a subir, dado que a pressão financeira ameaça menos o fornecimento de petróleo do que uma intervenção militar. Mas o Irão continua a poder perturbar o tráfego marítimo.
Há, porém, um dado a ter em conta. As reservas estratégicas norte-americanas caíram para 290 milhões de barris, o valor mais baixo desde novembro de 1982, reduzindo assim a margem disponível para absorver um choque do lado da oferta. Com menos reservas para amortecer imprevistos, o preço do petróleo torna-se mais sensível a qualquer novo episódio, e é sobretudo por aí, pela fatura energética e pela inflação, que estas duas frentes se farão sentir.
