
Vamos agora entrar no 2º semestre de 2026 e até agora o índice norte-americano S&P 500 mostra uma das tendências mais marcantes dos últimos anos. Por detrás de uma subida relativamente modesta, de cerca de 8%, esconde-se uma divisão profunda entre os vencedores e os perdedores. No topo da tabela das ações que mais valorizam está a Sandisk, fabricante de memória e armazenamento, com um ganho superior a 820% desde o início do ano. No extremo oposto surge a Intuit, empresa de software de gestão e contabilidade, a perder quase 60% do seu valor. Entre um lado e outro, aquilo que separa quem ganha de quem perde, depende quase sempre de um único fator, a inteligência artificial.
Das 20 ações com melhor desempenho do índice este ano, 19 são empresas relacionadas com a infraestrutura que torna a IA possível. Não são as empresas que criam os modelos de inteligência artificial, mas sim as que fornecem as peças e o equipamento físico de que a indústria necessita: os chips, a memória, os discos de armazenamento e as máquinas usadas para fabricar semicondutores. A corrida das grandes tecnológicas para construir gigantescos centros de dados disparou a procura por estes componentes, e os números falam por si. Um dos ETFs que reúne as principais empresas de semicondutores (SOXX ETF) mais do que duplicou de valor em 2026. Nomes como a Micron, a Western Digital, a Intel ou a AMD figuram entre os grandes vencedores do ano, até ao momento.
No extremo oposto estão as empresas de software. Este setor teve excelentes perfomances na última década, mas agora é o setor mais penalizado. Das 20 piores ações do S&P 500 este ano, 13 são precisamente empresas de software e serviços relacionados, da Salesforce à Adobe, passando pela Workday e a Accenture. Esta inversão reflete aquilo a que os profissionais chamam “rotação de mercado”, ou seja, o dinheiro que durante anos foi canalizado para as ações de software está agora a migrar para as empresas que produzem o equipamento da IA. Pesam também as dúvidas dos investidores sobre se a própria inteligência artificial não poderá vir a tornar parte deste software dispensável no futuro.
O contraste é de tal forma acentuado que nem as maiores empresas tecnológicas escaparam. O grupo das sete gigantes tecnológicas norte-americanas, as Magnificent 7, acumula uma perda de cerca de 3% no ano, mesmo com o índice em terreno positivo. Em 2026, olhar apenas para o desempenho global do mercado pode enganar, as diferenças entre setores raramente foram tão grandes. Estes movimentos fazem parte do funcionamento das bolsas e da economia, e tendem a alternar ao longo do tempo, relembrando que a diversificação continua a ser uma das melhores formas de não ficar dependente de uma única tendência/indústria.
