
A SpaceX está prestes a protagonizar a maior entrada em bolsa de sempre. A empresa de Elon Musk aponta para uma avaliação de cerca de 1,8 biliões de dólares e deverá estrear-se na Nasdaq a 12 de junho, sob o símbolo SPCX, numa operação que ultrapassa o IPO recorde da petrolífera saudita Aramco. Mas a SpaceX reúne três negócios muito diferentes, e só um deles dá lucro.
O primeiro negócio é de lançamento de foguetões. Este é o segmento mais conhecido da SpaceX. As receitas têm crescido de forma lenta mas constante, de 3,6 mil milhões de dólares em 2023 para 4,1 mil milhões em 2025, ainda que o forte investimento interno tenha levado o segmento a um prejuízo operacional no último ano. A grande mais-valia aqui não está no lucro imediato, mas na sua posição dentro da indústria. A SpaceX tornou-se tão essencial para a NASA e para a segurança dos Estados Unidos que dificilmente outra empresa a substituirá. É, neste momento, parte da infraestrutura crítica dos EUA.
O segundo negócio é o verdadeiro motor de lucro. A Starlink, a rede de internet via satélite. É o único segmento que dá dinheiro de forma consistente. As receitas dispararam de 3,9 mil milhões de dólares em 2023 para 11,4 mil milhões em 2025, com um lucro operacional de 4,4 mil milhões e mais de 10 milhões de clientes em 160 países. A sua vantagem competitiva é evidente. Por exemplo, no mar, as empresas de transporte chegavam a pagar 25 mil dólares por mês por internet de satélite, simplesmente porque não havia alternativa. A Starlink entrou no mercado e cortou esse preço para cerca de 2.500 dólares, com um serviço mais rápido. É um negócio recorrente, de margens altas e quase sem concorrência à altura. É provavelmente o que sustenta a maior parte do valor da empresa.
O terceiro negócio é o seu calcanhar de Aquiles. A inteligência artificial, através da xAI (a empresa por trás do chatbot Grok e da rede social X). Em 2025, este segmento gerou 3,2 mil milhões de dólares de receita, mas teve um prejuízo operacional de 6,3 mil milhões. A ambição é competir com gigantes como a OpenAI, a Google e a Anthropic, num setor que exige investimentos colossais em centros de dados e em chips. O problema é que estes rivais partem com vantagens difíceis de ultrapassar.
Daí a grande pergunta que paira sobre o IPO. A 1,8 biliões de dólares, os investidores não estão a pagar pela SpaceX de hoje, uma empresa que, no conjunto, fechou 2025 com um prejuízo líquido de 4,94 mil milhões de dólares, mas pela SpaceX que poderá existir daqui a 10 ou 20 anos. Para o valor fazer sentido, quase tudo tem de correr bem… o foguetão Starship tornar-se viável, a xAI aproximar-se das restantes na corrida dos modelos de IA e a Starlink continuar a crescer. A juntar a isto há o risco de depender de um único homem que gere ao mesmo tempo a SpaceX, a Tesla, a Neuralink e a The Boring Company. A entrada em bolsa promete gerar grande entusiasmo, se será também um bom investimento, é outra história.
