
As taxas das obrigações de longo prazo voltaram a subir e estão a deixar os investidores em alerta. Na semana passada, a yield das Treasuries americanas a 30 anos atingiu os 5,1%, o nível mais alto desde julho de 2007, e o impacto poderá fazer-se sentir nas ações, sobretudo nas tecnológicas e nas empresas ligadas à inteligência artificial.
O mercado obrigacionista em 2026 transformou-se numa das forças determinantes para os mercados globais, e a subida das yields do Tesouro norte-americano não é um fenómeno isolado. No Japão, por exemplo, as taxas das obrigações de longo prazo estão em máximos que não se viam desde o início deste século. Este comportamento tem várias leituras possíveis e nem todas são negativas, mas há razões para os investidores estarem atentos.
Do lado menos positivo, está a dúvida sobre a capacidade dos governos para controlar as suas contas, num momento em que os níveis de dívida pública são historicamente elevados. Yields mais altas significam juros maiores, o que pressiona ainda mais os orçamentos dos estados.
A isto junta-se um problema de credibilidade. A inflação nos EUA já soma 62 meses consecutivos acima do objetivo de 2% da Reserva Federal, com o IPC a registar uma média anual superior a 4% desde o início de 2020.
O indicador preferido da Fed, o PCE, subiu para 3,8% em abril, impactado pelo conflito no Médio Oriente e pela escalada do preço do petróleo, e o mercado obrigacionista está apenas a dizer aquilo que os bancos centrais têm tentado disfarçar… a inflação não está controlada.
Mas nem tudo é mau. Os 5% nas obrigações norte-americanas a 30 anos não são, em termos históricos, um valor extraordinário, a média dos últimos 50 anos ronda os 6,2%.
Com o rendimento fixo a tornar-se mais competitivo, parte dos investidores tende a reequilibrar carteiras a favor das obrigações, em detrimento das ações. Esta rotação tende a pressionar sobretudo as empresas de elevado crescimento e as cotadas com modelos de negócio dependentes de financiamento barato.
Isto não significa que as bolsas vão necessariamente cair. Significa, que se deve esperar mais volatilidade e alguma pressão nas avaliações, principalmente de empresas com múltiplos mais elevados.
Para quem investe em obrigações, a subida das yields é uma faca de dois gumes. No curto prazo penaliza as carteiras já constituídas, uma vez que os preços das obrigações movem-se em sentido inverso ao das taxas. No longo prazo, porém, abre uma janela de oportunidade, com o mercado a oferecer rendimentos mais elevados.
