
As ações das grandes marcas de luxo têm seguido em sentido contrário ao do resto da bolsa em 2026. Até ao fecho desta quarta-feira, o Amundi Global Luxury ETF, um fundo cotado que reúne as principais empresas do setor do luxo, acumulava uma desvalorização de 11,6% desde o início do ano. No mesmo período, o SPDR MSCI All Country World ETF, que replica o desempenho das bolsas de países desenvolvidos e emergentes, valorizou 19,7%. A diferença entre os dois ultrapassa os 31 pontos percentuais. Até ao final de fevereiro, os dois fundos tiveram desempenhos semelhantes, mas a divergência começou em março e voltou a aumentar em setembro. A subida do índice mundial tem sido sustentada sobretudo pelas empresas ligadas à inteligência artificial, com os semicondutores e o equipamento tecnológico a explicar grande parte do ganho das bolsas mundiais desde janeiro.
A guerra no Irão, iniciada no final de fevereiro, é o principal fator apontado para a queda. Os ataques iranianos atingiram hotéis no Dubai e levaram ao encerramento de aeroportos em vários países do Médio Oriente, o que provocou uma forte quebra do turismo e das compras na região, sobretudo nos Emirados Árabes Unidos, o principal mercado de luxo do Golfo Pérsico. O Médio Oriente tinha sido em 2025 a região de maior crescimento do setor e, em março, as vendas nos principais centros comerciais do Dubai e de Abu Dhabi chegaram a cair 50%. No mesmo mês, segundo dados do Citi, os voos internacionais de e para o Médio Oriente diminuíram dois terços. O efeito estendeu-se à Europa, com menos turistas a visitar Paris ou Londres, e a subida dos preços da energia penalizou a confiança dos consumidores. Desde o início do ano, nove das principais empresas europeias de luxo cotadas perderam, em conjunto, pelo menos 140 mil milhões de euros em valor de mercado, num setor em que a LVMH chegou a ser a empresa mais valiosa da Europa no início desta década.
O setor, no entanto, já enfrentava dificuldades antes do conflito. Depois de um forte crescimento entre 2019 e 2023, muitos consumidores de classe média reduziram as compras de luxo quando se esgotaram as poupanças acumuladas durante a pandemia e o custo de vida aumentou. Segundo a consultora Bain, cerca de 50 milhões de consumidores deixaram de comprar artigos de luxo entre 2022 e 2024.
Na China, um mercado muito relevante para o setor, a recuperação esperada não se confirmou. Em julho, as vendas das 25 maiores marcas de luxo no país caíram mais de 10%, num momento em que as autoridades reforçam a tributação do património que os mais ricos detêm no estrangeiro. As marcas europeias enfrentam também a concorrência de marcas chinesas, que ganham quota de mercado dada a maior proximidade à cultura e às preferências locais. Ao mesmo tempo, os consumidores chineses compram cada vez menos fora do país. Em 2025, 65% das suas compras de luxo foram feitas na China continental, segundo o relatório da Bain.
O impacto não foi igual entre as quatro maiores posições do ETF. A Richemont, dona da Cartier, é a exceção. Entre abril e junho, as vendas cresceram 20% a câmbios constantes, com a joalharia a subir 24%. Na LVMH, as receitas do primeiro semestre recuaram 3% e as ações chegaram em setembro a mínimos de quase seis anos. A Hermès manteve o crescimento das vendas, de 6,1% (sem os efeitos cambiais) no primeiro semestre, mas as ações chegaram a cair 14% em abril, para mínimos desde janeiro de 2023, depois de a guerra ter afetado as vendas no Médio Oriente e em França. Já a Ferrari reviu em alta as previsões para 2026 e tem encomendas que cobrem todo o ano de 2027. Para o conjunto do setor, a Bain prevê que o mercado de bens de luxo pessoais cresça apenas entre 2% e 4% este ano, um ritmo muito inferior ao dos anos de forte expansão do setor.
