
Há uma frase que se tornou popular entre investidores, “cash is trash”, ou seja, ter dinheiro parado é um desperdício, porque a inflação corrói o seu valor com o passar do tempo. A ideia é defendida até por investidores como Ray Dalio, um dos gestores de fundos mais conhecidos do mundo, e não deixa de ter razão.
No longo prazo, é verdade que deixar o dinheiro parado faz com que se perca poder de compra. No curto prazo, porém, a realidade pode ser a oposta.
A explicação é menos complicada do que parece. Quando a inflação dispara, os bancos centrais reagem quase sempre da mesma forma, sobem as taxas de juro para travar a subida dos preços. E quando os juros sobem, o valor da generalidade dos ativos tende a cair.
Foi precisamente isso que aconteceu em 2022. Enquanto a Reserva Federal norte-americana aumentou os juros para o intervalo 5,25% – 5,5%, o índice tecnológico Nasdaq100 chegou a cair cerca de 35% face ao máximo e o S&P 500 perdeu à volta de 25%. Nem o ouro escapou, com uma queda na ordem dos 14%, e a Bitcoin afundou mais de 70%.
Até as obrigações, habitualmente vistas como “porto seguro” das carteiras, não ficaram a salvo. As obrigações com maiores durações (por exemplo, 30 anos) chegaram a perder entre 30% e 40% do valor, à medida que as taxas subiam. Ou seja, os investidores que alocaram o dinheiro para escapar a uma inflação de mais de 6% acabaram em ativos que caíram muito mais do que esses 6%.
A verdade é que em momentos de pânico nos mercados, os diferentes tipos de ativos líquidos caiem ao mesmo tempo, e ter liquidez disponível deixa de ser um defeito para passar a ser uma vantagem.
Há ainda uma nuance importante sobre as ações. O verdadeiro problema para as empresas não é a inflação em si, mas a subida de juros que costuma vir posteriormente. Com taxas mais altas, os lucros futuros de uma empresa “valem menos” aos olhos do mercado, e quanto mais longínquos forem esses lucros, maior a perda de valor. Foi por isso que, em 2022, as empresas mais penalizadas foram as de forte crescimento mas que ainda não tinham lucros. Já as empresas mais sólidas e rentáveis, com uma marca forte e capacidade de subir preços, tendem a aguentar-se melhor. Mas o segredo aqui não é procurar empresas “à prova de inflação”, é simplesmente, procurar boas empresas, as mesmas que se quer ter em qualquer cenário, ou ainda mais fácil, simplesmente investir num índice diversificado.
A inflação não é boa para praticamente nenhum ativo no curto prazo, e quem investe num ambiente inflacionista deve mesmo esperar retornos mais baixos. Soluções habitualmente apresentadas como refúgio, como o ouro, as matérias-primas ou as obrigações, nem sempre mantêm o valor nesses períodos.
A boa notícia é que a performance dos nossos investimentos é muito afetada pelo horizonte temporal dos mesmos. Alargando o horizonte para vários anos/décadas, quase todas as classes de ativos acabam por entregar retornos médios anuais positivos, como ilustra a imagem em anexo. Por isso, mais do que tentar adivinhar o próximo cenário, o que faz sentido é gerir as poupanças para vários desfechos possíveis, separando bem o dinheiro que pode ficar investido a longo prazo daquele de que se pode precisar a curto prazo.
E, no fim, a inflação é apenas um dos muitos ambientes que os mercados podem atravessar.
