A corrida à inteligência artificial transformou um produto que passava quase despercebido, a memória dos computadores, num dos negócios mais cobiçados do planeta. A norte-americana Micron, um dos maiores fabricantes mundiais de chips de memória, apresentou resultados na passada 5ª feira que confirmam a dimensão deste fenómeno. As receitas do último trimestre dispararam cerca de 346% face ao período homólogo, para 41 mil milhões de dólares, com margens que ultrapassaram os 80%. A reação dos investidores foi imediata (+16% no dia) e a empresa passou a valer mais de um bilião de dólares, ultrapassando a Meta.
Por trás destes números está uma necessidade concreta. Os modelos de inteligência artificial precisam de enormes quantidades de memória avançada, fabricado essencialmente por três empresas no mundo, a Micron e as sul-coreanas Samsung e SK Hynix, para treinar e responder aos pedidos de milhões de utilizadores. Os grandes grupos tecnológicos, Alphabet, Amazon, Microsoft e Meta, os chamados “hyperscalers”, estão a investir somas históricas em centros de dados e, por enquanto, mostram-se dispostos a pagar o que for preciso. O resultado, por agora, é previsível, com a procura a superar largamente a oferta, os preços disparam. E é aqui que reside o detalhe mais revelador dos resultados apresentados pela Micron, a esmagadora maioria do seu crescimento não vem de vender mais unidades nem de novos produtos, mas sim do aumento dos preços dos produtos que já fabricava.
O problema é que esses preços não ficam confinados ao mundo dos centros de dados. A semana passada, a Apple subiu o custo de vários computadores Mac e tablets iPad entre 15% e 25%, justificando a decisão precisamente com o aumento do custo dos componentes de memória. É um momento de viragem que merece atenção. Agora, o custo da IA está a passar para o preço de produtos físicos do dia a dia, mesmo para quem nunca usou os modelos de IA, como o ChatGPT.
Sobre o que virá nos próximos anos, há duas leituras opostas, e ambas têm argumentos sólidos. Os mais otimistas acreditam que estamos perante um ciclo de investimento diferente de tudo o que se viu antes, onde a procura por IA será tão duradoura que os preços altos vieram para ficar. Os mais cautelosos lembram que o negócio da memória sempre foi cíclico, e que a seguir a períodos de euforia seguem-se quedas abruptas. Preços altos levam os clientes a procurarem alternativas e os fabricantes de memória a produzir mais mas, quando essa nova capacidade entrar em funcionamento, o excesso de oferta tenderá a fazer os preços recuar, algo que muitos antecipam a partir de 2027-2028.
