Portugal tinha cerca de 181.000 milionários em dólares no final de 2025. No entanto, apenas 37,0% da riqueza das famílias portuguesas está em ativos financeiros. O restante fica imobilizado sobretudo em habitação. É um dos valores mais baixos entre os mercados desenvolvidos. Traduz o retrato de um país onde se acumula património, mas se investe pouco.
Os dados constam do Global Wealth Report 2026 do UBS. O relatório foi publicado em junho e refere-se ao final de 2025. O estudo vai na sua 17.ª edição. Cobre 56 mercados que representam mais de 92% da riqueza mundial. É um dos barómetros mais citados sobre a criação e distribuição de riqueza global.
A equipa de research do UBS Global Wealth Management coordenou a análise. Paul Donovan, economista-chefe da divisão, resume o paradoxo da edição deste ano: “as pessoas tendem a pensar na sua riqueza em relação à riqueza dos outros, e não em termos absolutos”. A frase aplica-se a Portugal com precisão. Há mais milionários do que nunca. Contudo, a forma como essa riqueza está guardada revela fragilidades que os números totais escondem.
O problema está na composição do património
Na base do problema português está a composição do património. Nos Estados Unidos, os ativos financeiros valem 78,9% da riqueza das famílias. Na Suíça, esse valor é de 65,3%. Em Itália, chega a 50,9%. Portugal, com 37,0%, alinha-se com Espanha (31,4%) e Grécia (36,1%). É um padrão sul-europeu de riqueza ancorada em tijolo e pouco exposta aos mercados de capitais.
Para os investidores, e para as famílias em geral, a implicação é direta. Um património concentrado em habitação é um património pouco líquido e pouco diversificado. Valoriza no papel, mas não gera rendimento. Também não participa nos ganhos que os mercados financeiros proporcionaram em 2025. A prioridade deixa de ser acumular e passa a ser diversificar.
Milionários no papel, dinheiro preso na casa
O próprio relatório do UBS explica o mecanismo. A subida dos preços do imobiliário transforma pessoas em milionárias sem qualquer aumento do rendimento disponível. A habitação só se converte em riqueza utilizável quando alguém vende o imóvel e recebe o valor líquido de custos de transação.
É por isso que “ser milionário” diz pouco sobre a liquidez de uma família. Ter um milhão em património não é o mesmo que ter um milhão no banco ou numa carteira de investimentos. Em Portugal, a habitação domina o balanço das famílias. Por isso, esta distinção torna-se particularmente relevante.
Média de 195 mil dólares, mediana de 77 mil
A riqueza média por adulto em Portugal é de 195.761 dólares. Este valor coloca o país no 26.º lugar do ranking dos mercados mais ricos por este critério. A mediana, porém, conta outra história. Ela separa a metade mais rica da metade mais pobre e descreve melhor a pessoa “do meio”. Fica-se pelos 76.978 dólares.
A distância entre as duas medidas é sintomática. A mediana representa cerca de 40% da média. Isso sinaliza que a riqueza está concentrada no topo da distribuição. O coeficiente de Gini português, de 0,61, confirma uma desigualdade intermédia. É menor do que a dos EUA (0,77) ou da Alemanha (0,67), mas maior do que a de Espanha, França ou Itália.
A dívida das famílias é moderada
Nem tudo no retrato português é fragilidade. A dívida das famílias corresponde a 11,4% da riqueza bruta. É um nível controlado no contexto internacional. Fica abaixo da Suíça, do Reino Unido ou do Brasil, todos acima dos 20%. Ainda assim, situa-se acima de Itália (8,9%) e Espanha (7,6%).
O endividamento moderado dá margem às famílias portuguesas. O problema não é o excesso de dívida. É a ausência de exposição aos ativos que criam riqueza ao longo do tempo.
O mundo enriqueceu 10,8%, mas a mediana caiu
O contexto global ajuda a enquadrar Portugal. A riqueza pessoal mundial cresceu 10,8% em 2025, medida em dólares. Foi o ritmo mais rápido em anos e mais do dobro do registado em 2024. Os mercados financeiros fortes impulsionaram este avanço. A recuperação dos ativos não-financeiros também contribuiu.
Os ganhos, porém, foram desiguais. A média subiu, mas a riqueza mediana recuou na maioria dos mercados. Assim, a distância entre o topo e a base aprofundou-se. O número de milionários atingiu, pela primeira vez, um recorde em todos os 56 mercados analisados. Foram quase um milhão de novos milionários no ano, mais de 2.680 por dia. Os Estados Unidos concentraram quase metade.
Boa parte do brilho europeu de 2025 tem explicação cambial. O euro valorizou-se quase 9% face ao dólar. Isso inflacionou os números da região quando medidos na moeda norte-americana. Descontado o efeito de câmbio, o enriquecimento real das famílias europeias é bem mais modesto.
