
Quando o preço do petróleo dispara, é natural assumir que isso irá afetar os retornos dos mercados acionistas. Energia mais cara significa maiores custos para empresas e famílias, mais pressão sobre a inflação e mais incerteza para a economia. E o petróleo pode, de facto, ser extremamente volátil. Só nesta década, chegou a negociar a valores negativos durante a pandemia e ultrapassou os $130 por barril após o início da guerra na Ucrânia. Ainda assim, a história mostra que a reação das bolsas nem sempre é tão negativa como seria de esperar, mesmo em períodos de forte subida do crude.
O gráfico em anexo ajuda a ilustrar isso de forma clara. Ao olhar para os últimos 40 anos, percebe-se que houve vários anos em que o petróleo subiu bastante e, apesar disso, o S&P 500 teve retornos anuais bastante positivos. Em muitos casos, as ações até tiveram melhores desempenhos em anos de subida do preço do petróleo do que em anos de queda. À primeira vista, parece contraintuitivo, mas ajuda a lembrar que os mercados não reagem apenas ao preço da energia, reagem sobretudo ao motivo por detrás dessa subida.
Uma valorização do petróleo pode querer dizer coisas muito diferentes. Em alguns períodos, pode refletir uma economia global mais forte, maior procura e mais atividade económica, o que tende a ser positivo para muitas empresas. Noutros casos, como em períodos de guerra ou tensão geopolítica, o petróleo sobe por receio de choques do lado da oferta, o que pode ser mais preocupante. É isso que se está a verificar atualmente. O petróleo teve uma subida muito expressiva num curto espaço de tempo, mas os mercados acionistas globais, para já, tiveram um impacto menor do que muitos antecipariam. O MSCI All World (SPYI), desvalorizou apenas cerca de 3% face aos máximos recentes. Isso mostra, mais uma vez, que o mercado tenta avaliar não apenas o choque em si, mas a sua duração e as suas consequências reais na economia.
A principal questão não é apenas saber se o petróleo vai subir, mas sim durante quanto tempo ficará elevado. Se for um movimento temporário, o impacto nas bolsas pode ser relativamente limitado. Se os preços da energia permanecerem elevados durante meses/anos, aí sim o efeito pode tornar-se mais evidente, ao reduzir consumo, margens e crescimento económico. Ainda assim, petróleo mais caro pode criar ruído, volatilidade e preocupação, mas não significa automaticamente maus retornos anuais para o mercado acionista.
