
Em 2022, os mercados viveram um dos anos mais difíceis da última década. A combinação da guerra na Ucrânia, choque energético, inflação elevada e subida agressiva das taxas de juro pressionou quase todas as classes de ativos. Nos EUA, a inflação chegou aos 9,1% em junho de 2022, o valor mais alto em cerca de 40 anos, e a Reserva Federal terminou o ano com a taxa diretora no intervalo de 4,25% a 4,50%. Na Zona Euro, o impacto também foi significativo, com a inflação a atingir os 10,6% em outubro e o BCE terminou o ano com a taxa de depósito nos 2% e a principal taxa de refinanciamento nos 2,5%.
O gráfico demonstra bem esse cenário. Em 2022, poucas classes de ativos conseguiram escapar às perdas. As matérias-primas foram a grande exceção, com uma valorização de 22%, beneficiando da subida dos preços da energia, alimentos e outros bens físicos, num ano em que ações, obrigações e imobiliário sofreram quedas relevantes.
A razão é relativamente simples de entender. Quando a inflação sobe e os bancos centrais aumentam as taxas de juro, as obrigações antigas perdem valor, porque passam a oferecer pagamentos menos atrativos face às novas emissões. Ao mesmo tempo, as ações também tendem a sofrer, sobretudo as empresas mais dependentes de crescimento futuro. Foi por isso que, em 2022, tanto ações como obrigações caíram em simultâneo, algo particularmente desconfortável para os investidores.
Em 2026 temos alguns paralelos. O custo da energia voltou a estar no centro das preocupações, e a inflação voltou a acelerar, com os EUA a registarem 3,3% em março e a Zona Euro 3,0% em abril, ainda longe dos picos de 2022, mas já acima das metas dos bancos centrais.
O impacto nos mercados dependerá sobretudo da duração do choque energético e da resposta dos bancos centrais. Se os preços da energia estabilizarem e a inflação voltar a descer, o cenário poderá ser menos severo do que em 2022. Mas se o petróleo se mantiver elevado e os bancos centrais forem forçados a subir as taxas de juro, o contexto tornar-se-ia mais exigente para os investidores: as obrigações poderiam voltar a ser penalizadas, os múltiplos das ações podem contrair e os ativos ligados à inflação, como matérias-primas e energia, tenderiam a ganhar maior protagonismo.
Uma repetição do cenário adverso de 2022 parece, para já, pouco provável, mas o gráfico desta semana recorda que, em ambientes de inflação e juros altos, a diversificação tradicional pode não ser suficiente, e compreender o comportamento de cada classe de ativo torna-se relevante nas decisões dos investidores.
