
A J.P. Morgan Asset Management reforçou a aposta em ações de qualidade, alertando que a fase atual dos mercados exige maior seletividade por parte dos investidores.
Essa foi uma das principais mensagens deixadas por Lucía Gutiérrez-Mellado, diretora de estratégia para Espanha e Portugal da J.P. Morgan Asset Management, na apresentação do Guide to the Markets a que a MoneyLab esteve presente.
A gestora justificou esta abordagem com a incerteza geopolítica, o risco de inflação persistente e sinais de abrandamento económico, sobretudo na Europa.
Petróleo e gás natural voltam a ser um risco para a Europa
O bloqueio do estreito de Ormuz é especialmente relevante porque pode afetar não só o preço do petróleo, mas também o do gás natural. Para a Europa, este ponto é particularmente sensível, já que a região continua mais exposta a choques energéticos do que os Estados Unidos.
Como recordou a responsável da J.P. Morgan, o impacto da energia na economia europeia continua a ser significativo:
“Não é apenas o preço do petróleo, é também o preço do gás e, na Europa, somos sensíveis à subida de ambos.”
Ainda assim, a gestora sublinhou que a subida do preço do gás tem sido mais moderada do que a observada em 2022, durante o início da guerra na Ucrânia. Isso reduz o risco de um cenário mais extremo no curto prazo.
Segundo a J.P. Morgan, o cenário mais provável continua a ser o de uma resolução antes do período mais crítico de reposição de reservas para o inverno. No entanto, se o conflito se prolongar ao longo do verão, o impacto económico poderá agravar-se, com mais pressão sobre a inflação e sobre o crescimento europeu.
Do ponto de vista económico, o maior efeito tenderá a verificar-se através do consumo. Como a procura de energia é pouco sensível ao preço, famílias e empresas acabam por ter menos margem para gastar noutros segmentos da economia. Isso pode abrandar a atividade económica, sobretudo numa altura em que o consumo continua a ser um dos principais motores do crescimento tanto nos Estados Unidos como na Europa.
Inflação continua a exigir prudência dos bancos centrais
Outro dos grandes temas da apresentação foi a política monetária. A J.P. Morgan alertou que a situação atual não é diretamente comparável à de 2022.
Os níveis de inflação continuam bastante abaixo dos registados nessa altura e as taxas de juro estão hoje em níveis mais “normais”, ao contrário do que acontecia quando os bancos centrais partiam de juros praticamente nulos ou negativos.
A preocupação dos bancos centrais é de evitar repetir o erro passado de considerar a inflação como um fenómeno temporário. A recente subida de alguns dados da inflação mostra que o problema pode não estar totalmente resolvido, sobretudo se os preços da energia continuarem pressionados durante mais tempo.
Ações continuam a fazer sentido, mas a qualidade ganha peso
Apesar do aumento da incerteza, a J.P. Morgan mantém uma posição positiva para as ações, embora com algum ajuste tático.
A gestora considera que a próxima época de resultados poderá mostrar com maior clareza os efeitos do conflito no enquadramento económico e nos lucros das empresas. Por isso, continua a defender investimento em ações, mas com maior exigência na seleção.
É neste contexto que o fator qualidade volta a ganhar destaque. Em fases em que o mercado deixa de subir de forma generalizada, tende a ser mais importante identificar empresas com balanços sólidos, rentabilidade consistente e maior capacidade para atravessar períodos de volatilidade sem deterioração significativa do negócio.
Como resumiu Lucía Gutiérrez-Mellado:
“Num contexto como o atual, em que ainda existe incerteza e as valorizações não são particularmente atrativas, o fator qualidade continua a ser essencial para identificar oportunidades de médio e longo prazo.”
Diversificação e horizonte longo continuam a ser essenciais
A J.P. Morgan voltou também a sublinhar que os investidores de longo prazo devem evitar reagir de forma impulsiva ao ruído de curto prazo.
Desde 1986, o índice MSCI World registou períodos de volatilidade em todos os anos. Ainda assim, a queda máxima intra-anual média foi de cerca de 14,6%, mas o índice terminou em terreno positivo em 29 dos últimos 40 anos. Ou seja, a volatilidade faz parte do investimento, mas isso não impede a criação de valor no longo prazo.
A gestora destacou ainda que uma carteira tradicional 60/40 superou a rentabilidade da liquidez em todos os períodos de três anos, independentemente das crises atravessadas. Reforçando a ideia de que tentar sair do mercado perante cada choque tende a ser menos eficaz do que manter uma estratégia consistente e diversificada.
A principal mensagem deste Guide to the Markets foi de prudência, mas não de pessimismo. O conflito no Médio Oriente acrescenta pressão sobre a inflação e sobre o crescimento, sobretudo na Europa. Ainda assim, o cenário base da J.P. Morgan continua a apontar para um impacto controlável.
Neste contexto, a disciplina, a diversificação e o foco no longo prazo continuam a ser essenciais.
“Em momentos de incerteza, manter a calma e continuar investido continua a ser uma das decisões mais importantes para o investidor de longo prazo.”
