A J.P. Morgan Asset Management prevê o maior retorno das obrigações em duas décadas. Na zona euro, por exemplo, estima que a dívida pública renda 4,2% ao ano na próxima década, contra 3,4% há um ano. Assim, segundo um relatório a que o MoneyLab teve acesso, o retorno das obrigações volta a ficar acima da inflação e da liquidez.
A J.P. Morgan Asset Management reviu em alta as previsões de retorno das obrigações, segundo um relatório da gestora a que o MoneyLab teve acesso. Na origem da revisão está, sobretudo, a subida dos juros reais. Para as obrigações globais agregadas, a previsão é de 5,3% ao ano em dólares. Trata-se, portanto, do valor mais alto em duas décadas, contra 2,1% em 2021.
As estimativas fazem parte das Long-Term Capital Market Assumptions (LTCMA) 2027, que projeta o retorno e o risco de mais de 200 classes de ativos, em mais de 20 moedas, num horizonte de 10 a 15 anos. Por isso, gestoras e fundos de pensões usam-no como referência para a alocação estratégica.
Além disso, a revisão surge num contexto de inflação mais volátil, défices públicos elevados e um ciclo de investimento puxado pela inteligência artificial.
Retorno das obrigações em euros
Em euros, as obrigações de dívida pública da zona euro deverão render 4,2% ao ano, segundo a gestora. Em contrapartida, a previsão para a liquidez é de 2,6%, enquanto a inflação na zona euro deverá ficar nos 2,2%.
Deste modo, descontada a inflação, a dívida pública oferece um retorno real de cerca de 2 pontos percentuais por ano. Na liquidez, pelo contrário, esse retorno fica abaixo de meio ponto.
Em resumo, estas são as previsões anuais da J.P. Morgan em euros, com a edição anterior entre parênteses:
- Inflação na zona euro: 2,2% (2,0%)
- Liquidez em euros: 2,6% (2,3%)
- Dívida pública da zona euro: 4,2% (3,4%)
- Obrigações de empresas da zona euro com grau de investimento: 4,6% (4,0%)
- Ações mundiais: 7,0% (6,4%)
- Ações de grandes empresas da zona euro: 7,6% (7,2%)
Juros reais e prémio de prazo
A gestora atribui a revisão a três fatores. Em primeiro lugar, juros reais mais elevados. Depois, a recomposição do prémio de prazo. Por fim, a maior emissão de dívida pública.
Como consequência, as curvas de rendimento estão mais inclinadas do que há três anos. Ainda assim, os spreads de crédito continuam apertados.
“As obrigações parecem baratas e os ativos de risco parecem caros”, lê-se no relatório.
Do mesmo modo, John Bilton, diretor global de Investigação Estratégica para Soluções Multi-Ativos da J.P. Morgan Asset Management, vê “novas oportunidades para construir carteiras mais robustas através da diversificação”. Para isso, defende a combinação de “rendimentos mais elevados na renda fixa global com ativos alternativos e reais”.
Carteira 60/40
Por outro lado, o retorno previsto para uma carteira de 60% em ações e 40% em obrigações, denominada em dólares, sobe para 7,0% ao ano.
No entanto, a gestora alerta para a maior correlação entre ações e obrigações, que reduz o efeito de proteção entre as duas classes. Por essa razão, o relatório defende diversificação adicional. Assim, uma alocação de 30% a ativos alternativos poderá elevar o retorno para 7,5% e melhorar o rácio de Sharpe em 21%.
Ações norte-americanas
Nas ações, a previsão para as grandes empresas dos EUA sobe 80 pontos base, para 7,5% em dólares. A gestora justifica a revisão com margens de lucro acima de 15% e, sobretudo, com ganhos de produtividade associados à inteligência artificial.
Além disso, pela primeira vez na história do relatório, as previsões para os mercados desenvolvidos superam as dos emergentes, que recuam para 7,1%. Em euros, porém, a gestora prevê 7,0% para as ações mundiais, uma vez que antecipa a depreciação do dólar. Contudo, o relatório aponta as avaliações elevadas e a concentração do mercado norte-americano como riscos.
Bitcoin
A J.P. Morgan apresenta também, pela primeira vez, um intervalo de retorno para a bitcoin, com um cenário central de cerca de 10% ao ano. Apesar disso, a gestora não a inclui em nenhuma alocação. Pelo contrário, classifica-a como “um ativo especulativo”, porque a correlação com outros ativos é instável e a volatilidade é elevada.
Implicações para investidores
Para quem investe em euros, as previsões indicam que a liquidez deverá render pouco acima da inflação na próxima década. Já as obrigações, em contrapartida, voltam a oferecer um retorno real positivo.
“O retorno é importante, mas já não é o único fator a ter em conta”, disse Grace Peters, co-responsável global de Estratégia de Investimento do J.P. Morgan Private Bank. “No contexto atual, é essencial encontrar o equilíbrio ideal entre risco e retorno.”
Em suma, a mensagem da gestora é de diversificação, num ciclo marcado por nacionalismo económico, aceleração tecnológica e inflação mais volátil. Portanto, num mercado de avaliações exigentes, a disciplina na alocação entre ações e obrigações deverá voltar a pesar no retorno de longo prazo.
Este artigo tem caráter informativo e, por isso, não constitui recomendação de investimento. Os retornos apresentados são estimativas da J.P. Morgan Asset Management, pelo que não garantem resultados futuros.
