
As obrigações são muitas vezes vistas como a parte mais estável de uma carteira de investimento, mas os últimos meses mostraram que também podem perder valor. No terceiro trimestre, o Bloomberg US Aggregate, o índice mais usado como referência para as obrigações norte-americanas, desvalorizou 3,5%, o pior desempenho trimestral desde 2022. Com uma perda acumulada de 1,7% desde o início do ano, 2026 pode tornar-se apenas o sexto ano negativo desde 1976.
Até há poucos anos, era raro as obrigações fecharem o ano em queda. Entre 1976 e 2020, isso só aconteceu três vezes. Seguiram-se perdas em 2021 e 2022, este último considerado o pior ano de que há registo, com uma desvalorização de 13%. Mas 2022 foi um ano atípico, marcado por uma subida rápida das taxas de juro a partir de níveis historicamente baixos, com os bancos centrais, que mantinham as taxas de referência perto de zero, a reagir ao aumento da inflação. Quando os juros sobem, as obrigações já emitidas, que pagam menos do que as novas, perdem valor. Nos três anos seguintes, o índice recuperou praticamente toda a perda.
Quedas temporárias também fazem parte do investimento em obrigações
Como mostra o gráfico, todos os anos desde 1976 tiveram períodos de queda, mesmo os que terminaram com ganhos. Em média, o índice chegou a cair 3,5% em algum momento de cada ano, e em 2026 essa descida atingiu os 4,6%, ligeiramente acima do habitual. Nas ações, as oscilações são bem maiores. O S&P 500, principal índice bolsista dos EUA, regista em média uma queda máxima de cerca de 14% em cada ano, um valor próximo da perda das obrigações em 2022. Os dados mostram que, tal como nas ações, as descidas temporárias (ou correções) fazem parte do funcionamento normal do mercado obrigacionista, ainda que tendam a ser menos acentuadas.
Há ainda um fator que explica por que razão estas quedas tendem a ser temporárias. Quem compra uma obrigação de taxa fixa, seja norte-americana ou portuguesa, e a mantém até ao fim do prazo recebe o montante que o emitente se comprometeu a pagar no vencimento, desde que não haja incumprimento. Isto acontece mesmo que os juros subam entretanto. Por isso, a longo prazo, o retorno depende sobretudo da taxa de rendibilidade (a yield) no momento da compra, e não das oscilações de preço.
Hoje, essa taxa ronda os 5,45% no índice norte-americano, muito acima dos 1,75% no início de 2022.
