
A subida dos juros tem efeitos diferentes no bolso dos portugueses. Quem tem poupanças pode receber mais pelo dinheiro que aplica. Por outro lado, quem tem um crédito à habitação com taxa variável arrisca uma prestação mais alta. As empresas e o Estado também passam a pagar mais para se financiar.
A 28 de setembro, os juros da dívida portuguesa a 10 anos chegaram aos 4,05%, o valor mais alto desde março de 2017. Estavam cerca de um ponto percentual acima do nível de há um ano. Esta taxa indica quanto os investidores exigem para emprestar dinheiro a Portugal durante dez anos.
A tendência é internacional. Nos Estados Unidos, na Alemanha e em França, os juros da dívida também atingiram máximos de vários anos.
Porque estão os juros a subir?
Há vários fatores a pressionar os juros. A guerra no Irão fez subir a inflação. Ao mesmo tempo, os Estados precisam de mais dinheiro emprestado e as grandes tecnológicas procuram financiamento para investir em inteligência artificial. Esta procura pode tornar o crédito mais caro.
Na zona euro, o Banco Central Europeu (BCE) subiu as taxas de juro em junho e setembro, colocando a taxa de depósito nos 2,5%.
O objetivo é travar a inflação: com empréstimos mais caros, as famílias e as empresas tendem a gastar menos. Por sua vez, essa redução do consumo ajuda a conter a subida dos preços. Em Portugal, a inflação chegou aos 3,6% em setembro, o valor mais elevado em três anos.
Quem ganha com a subida dos juros?
Quem tem poupanças para aplicar
Os juros mais altos podem melhorar a remuneração das poupanças. No entanto, os bancos nem sempre acompanham a subida ao mesmo ritmo.
Em setembro, a taxa base dos Certificados de Aforro atingiu os 2,5%. Já os novos depósitos a prazo pagaram, em média, 1,63% em agosto, segundo o Banco de Portugal. Em comparação, a média da zona euro foi de 2,18%.
Ainda assim, estas taxas ficaram abaixo da inflação. Ou seja, o dinheiro rende mais, mas pode continuar a perder poder de compra, porque os preços sobem mais depressa.
Quem investe agora em obrigações
Comprar uma obrigação é emprestar dinheiro a um Estado ou a uma empresa em troca de juros. Com a subida das taxas, quem investe agora pode conseguir uma remuneração mais elevada.
No final de setembro, a dívida portuguesa a 10 anos oferecia cerca de 4%. As obrigações de empresas europeias consideradas mais seguras rendiam, em média, cerca de 4,3%. Por sua vez, as de empresas com maior risco ofereciam mais de 6%.
Contudo, uma taxa mais alta pode significar maior risco de não receber o dinheiro de volta.
Para quem já tinha obrigações, o efeito pode ser o contrário. Quando os juros sobem, o preço dos títulos antigos tende a descer. Por isso, quem precisar de os vender antes do prazo pode perder dinheiro.
Empresas com dinheiro disponível
As empresas com reservas de dinheiro podem ganhar mais juros ao aplicá-las. Assim, ficam numa posição mais favorável do que aquelas que precisam de pedir empréstimos para pagar despesas ou investir.
Famílias com taxa fixa no crédito à habitação
As famílias que fixaram a taxa do crédito à habitação ficam protegidas durante esse período. A prestação não baixa por causa da subida dos juros, mas também não aumenta com a Euribor.
Em abril, cerca de 85% dos novos empréstimos para compra de casa tinham taxa mista, com uma taxa média de 2,74%. Nestes contratos, a taxa é fixa nos primeiros anos e passa depois a variável. Por isso, a proteção dura apenas até ao fim do período de taxa fixa.
Quem perde com a subida dos juros?
Famílias com crédito à habitação a taxa variável
Estas famílias estão entre as mais expostas. Quando a Euribor sobe, a prestação da casa aumenta na revisão seguinte do contrato.
A Euribor a 12 meses passou de uma média de 2,2% em outubro de 2025 para 3,32% no início de outubro de 2026. Contudo, o aumento da prestação não é igual para todos: depende do montante em dívida, do prazo que falta pagar e das condições do empréstimo.
No final de 2025, os créditos a taxa variável ainda representavam a maioria dos empréstimos à habitação em Portugal. Por isso, muitas famílias sentem a subida dos juros diretamente no orçamento mensal.
Pequenas e médias empresas
As pequenas e médias empresas dependem mais dos bancos para se financiar. Assim, quando os empréstimos ficam mais caros, sobra menos dinheiro para contratar, comprar equipamentos ou expandir o negócio.
Em contrapartida, algumas grandes empresas estão mais protegidas porque conseguiram financiamento a taxas fixas mais baixas em anos anteriores. Essa proteção diminui quando precisam de voltar a pedir dinheiro emprestado.
O Estado
O Estado também enfrenta uma conta maior. O Governo prevê que a despesa com juros da dívida pública aumente 776 milhões de euros em 2027.
Segundo o Conselho das Finanças Públicas, estes encargos deverão passar de 1,9% para 2,1% do PIB, o valor dos bens e serviços produzidos no país. Como resultado, o pagamento de juros deixa menos margem no orçamento para outras despesas.
No entanto, o impacto é gradual. Como uma parte importante da dívida portuguesa só vence daqui a vários anos, as taxas mais altas não se aplicam de imediato a toda a dívida.
Quem procura casa para arrendar
Os inquilinos também podem sentir efeitos indiretos. O crédito mais caro aumenta os custos de construção e pode levar ao adiamento de novos projetos. Como resultado, podem chegar menos casas ao mercado, aumentando a pressão sobre as rendas.
Os juros não são a única causa da subida das rendas, mas podem agravar a falta de oferta. Segundo o INE, a renda mediana dos novos contratos aumentou 9,1% no primeiro trimestre de 2026.
O que esperar nos próximos meses?
Os efeitos da subida dos juros vão continuar a chegar às famílias, às empresas e ao Estado. Isso acontecerá à medida que os bancos revejam as prestações e seja necessário contratar novos empréstimos.
Para quem tem poupanças, podem surgir oportunidades de ganhar mais juros. Por outro lado, quem tem dívidas pode ter de reservar uma parte maior do orçamento para as pagar.
A próxima reunião do BCE está marcada para 28 e 29 de outubro, em Frankfurt. A decisão ajudará a perceber o rumo das taxas de juro, com consequências para o crédito à habitação, as poupanças e o financiamento da economia.
