A inflação em Portugal subiu para 3,6% em setembro, segundo os dados divulgados na terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que confirmam a estimativa rápida publicada no final do mês passado. Trata-se da taxa mais elevada desde agosto de 2023 e do segundo mês consecutivo de aceleração, depois dos 3,3% registados em agosto. Este indicador, a inflação homóloga, compara os preços de um mês com os do mesmo mês do ano anterior. Na prática, um conjunto de bens e serviços que custava 100 euros em setembro de 2025 custa agora, em média, 103,60 euros. Ainda assim, Portugal mantém-se abaixo da média europeia. O Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), usado para comparar os países da União Europeia, ficou em 3,6%, abaixo dos 3,8% estimados pelo Eurostat para a zona euro.
Segundo o INE, a aceleração dos preços é explicada em grande medida pelo aumento do preço dos combustíveis. Os produtos energéticos ficaram 15,3% mais caros do que há um ano, acima dos 12,2% registados em agosto. Esta evolução acompanha a subida do petróleo, que no início de setembro voltou a ultrapassar os 100 dólares por barril (Brent), numa altura em que o conflito no Médio Oriente continua a afetar a navegação no estreito de Ormuz. Em setembro, o gasóleo e a gasolina passaram a custar mais de dois euros por litro, quando no primeiro dia do ano o preço médio era de 1,53 euros no gasóleo e de 1,66 euros na gasolina, segundo a Direção-Geral de Energia e Geologia. Na prática, encher um depósito de 50 litros de gasóleo passou de cerca de 77 euros para mais de 100 euros.
A subida estende-se a outras despesas do dia a dia. Os preços dos transportes aumentaram 8,2% e os da restauração e alojamento 7,2%, enquanto os alimentos frescos ficaram 3,7% mais caros. Já a inflação subjacente, que exclui a energia, ficou em 2,7%, o que mostra o contributo dos combustíveis para a subida geral dos preços.
Para as famílias, o efeito mais direto é a perda de poder de compra. Quem não teve um aumento de salário ou de pensão de pelo menos 3,6% no último ano consegue hoje comprar menos com o seu rendimento do que em setembro de 2025. O mesmo se aplica às poupanças, 1.000 euros guardados numa conta sem juros desde essa altura compram hoje o mesmo que cerca de 965 euros compravam há um ano.
O crédito também ficou mais caro. Para conter a subida dos preços, o Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas de juro em junho, a primeira subida em quase três anos, e voltou a fazê-lo em setembro, colocando a taxa de depósitos nos 2,5%. Quem tem crédito à habitação com taxa variável já sente esta subida. A Euribor a seis meses, a mais utilizada nos créditos à habitação com taxa variável em Portugal, fixou-se em 3,06% no início de outubro, quando há um ano rondava os 2,1%, o que se traduz em prestações mais altas. Nas rendas, os senhorios podem aplicar em 2027 uma atualização até 2,56%, de acordo com o coeficiente publicado em Diário da República e calculado com base na inflação sem habitação até agosto. Já o aumento das pensões em janeiro dependerá da inflação média sem habitação apurada em novembro e do crescimento da economia. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma inflação de 3,2% em Portugal este ano, acima dos 2,9% estimados pelo Governo na proposta de Orçamento do Estado para 2027.
