As bolsas mundiais começaram a semana em terreno negativo, depois de vários dos principais líderes do setor da inteligência artificial terem defendido, durante o fim de semana, um abrandamento no desenvolvimento da tecnologia. Nos Estados Unidos, na abertura dos mercados, o S&P 500 recuava 0,7% e o Nasdaq Composite 1,2%, enquanto o Dow Jones perdia 0,3%.
A origem do movimento está num artigo publicado no sábado por Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic, intitulado “We Must Pace the Frontier”. No texto, o responsável defende que a indústria deve reduzir deliberadamente o ritmo a que aumenta as capacidades dos modelos de inteligência artificial, apontando dois motivos: o facto de os sistemas de IA já participarem no desenvolvimento das gerações seguintes dos modelos e um incidente de segurança envolvendo agentes automáticos da OpenAI. A Anthropic comprometeu-se a dar a avaliadores externos acesso permanente aos seus sistemas, para verificarem o cumprimento das medidas de segurança. Sam Altman, da OpenAI, concordou com a proposta e garantiu que a sua empresa iria adotar o mesmo compromisso. Elon Musk limitou-se a escrever “Dario tem razão”. Demis Hassabis, da Google DeepMind, considerou que a direção é correta, sem assumir compromissos concretos.
Nas principais bolsas, a reação foi imediata, um abrandamento no desenvolvimento de modelos avançados pode significar menos investimento em centros de dados e em equipamento, que é precisamente o que sustentou a valorização das bolsas no último ano. As empresas de semicondutores foram as mais penalizadas. Na Europa, a Infineon e a ASML registavam perdas superiores a 6%. Nos Estados Unidos, a Micron recuava perto de 5%, a Intel quase 6% e a Nvidia cerca de 3%. Na Ásia, as ações da SoftBank, uma das maiores acionistas da OpenAI, chegaram a cair mais de 13%, e o índice sul-coreano Kospi recuou 3,3%. Empresas ligadas à construção de infraestruturas, como a Siemens Energy e a Schneider Electric, esta manhã também tinham uma performance diária negativa.
O consenso não é, porém, universal. O Presidente norte-americano, Donald Trump, rejeitou no domingo qualquer travão ao desenvolvimento da tecnologia, argumentando que isso colocaria em risco a vantagem dos Estados Unidos sobre a China. Jensen Huang, CEO da Nvidia, sugeriu na semana passada que as empresas do setor têm interesse comercial ao exacerbar os receios, uma vez que preparam também o lançamento de produtos de cibersegurança. O próprio Amodei admitiu que o principal dilema da sua proposta é o que acontece se as empresas chinesas não fizerem o mesmo. Entretanto, Altman afirmou que uma entrada em bolsa da OpenAI este ano seria desaconselhável, adiando um dos IPOs mais aguardados do mercado.
Esta semana tem ainda dois fatores de pressão adicionais. O petróleo voltou a subir depois de a Arábia Saudita ter encerrado um oleoduto que permite contornar o estreito de Ormuz, com o Brent a valorizar cerca de 4%, para valores acima dos 107 dólares por barril, e o WTI a negociar acima dos 102 dólares, máximos que não se registavam desde maio. A somar a isso, a Reserva Federal norte-americana reúne-se na quarta-feira, e os mercados atribuem já uma probabilidade próxima de 90% a uma subida de taxas de juro, depois de a inflação subjacente de agosto ter permanecido alta (3,4%). A combinação de energia mais cara, política monetária mais restritiva e dúvidas sobre o ritmo do investimento em IA explicam o arranque negativo da semana.
