A energia nuclear está a ganhar importância nas estratégias energéticas de vários países, depois de décadas em que muitos suspenderam novos projetos e encerraram centrais. Os acidentes de Three Mile Island em 1979, de Chernobyl em 1986 e de Fukushima em 2011 geraram uma forte oposição pública à energia nuclear e levaram muitos governos a reduzir ou abandonar os seus programas nucleares. Mas o cenário tem vindo a mudar nos últimos anos essencialmente por quatro motivos. O primeiro é a segurança energética. A invasão da Ucrânia por parte da Rússia e a guerra no Irão, que perturbaram os mercados de petróleo e gás, mostraram os riscos de depender de combustíveis importados. O segundo são as metas climáticas, já que as centrais nucleares produzem eletricidade com emissões de carbono reduzidas. O terceiro é a fiabilidade. Ao contrário da energia solar e eólica, a energia nuclear produz de forma constante, 24 horas por dia, independentemente das condições meteorológicas. O quarto é o aumento do consumo de eletricidade, impulsionado em grande parte pelos centros de dados associados à inteligência artificial.
Na Europa, a mudança já é visível. Em 2024, segundo o Eurostat, as centrais nucleares produziram 23% da eletricidade da União Europeia. França tem sido um dos principais exemplos, com a energia nuclear a assegurar mais de 60% da eletricidade do país e preços de energia mais baixos do que na Alemanha, que abandonou o programa nuclear. Outros países estão a rever a sua posição. Em Espanha, a central de Almaraz, a cerca de 110 quilómetros da fronteira portuguesa, devia começar a encerrar em 2027, mas em agosto, o Governo espanhol prolongou o seu funcionamento até 2030. Os obstáculos, contudo, mantêm-se, uma vez que as novas centrais são caras e demoram vários anos a construir.
O investimento em inteligência artificial veio reforçar esta tendência. Os modelos de IA funcionam em centros de dados, instalações com milhares de servidores que consomem grandes quantidades de eletricidade e precisam de abastecimento permanente. Nos EUA, estes centros foram responsáveis por cerca de metade do crescimento do consumo de eletricidade em 2025, segundo a Agência Internacional de Energia. A nível mundial, o consumo dos centros de dados deverá mais do que duplicar até 2030, de acordo com dados citados pelo J.P. Morgan. A União Europeia, por seu lado, pretende triplicar a capacidade de centros de dados até 2035.
É neste contexto que têm sugirdo vários acordos entre as grandes empresas tecnológicas e as empresas de energia nuclear, com destaque para a Constellation Energy, a maior operadora de centrais nucleares dos EUA. Esta semana, a Google (Alphabet) assinou com a empresa um contrato de 20 anos que vai permitir à Constellation aumentar a produção de várias centrais. Na semana passada, a Amazon fechou um acordo semelhante. E em setembro de 2024, a Microsoft já tinha chegado a acordo com a Constellation para reativar um reator de Three Mile Island destinado a abastecer os seus centros de dados. Desta forma, as tecnológicas garantem eletricidade durante décadas a um preço acordado com base nas condições atuais, numa altura em que se prevê um forte aumento do consumo de energia.
