
No dia 18 de agosto, a dívida pública americana ultrapassou os 40 biliões de dólares. No dia anterior, a taxa exigida pelos investidores para financiar o Tesouro americano a 30 anos tinha chegado aos 5,31%, um nível não visto desde 2007, e não é um caso isolado. Na Alemanha, a taxa a 10 anos aproximou-se dos 3,28%, o valor mais alto em 15 anos; em França, a dívida a 30 anos negociou a 4,92%, máximo desde 2008; no Reino Unido, os juros a 30 anos estão no ponto mais alto desde 1998 e, no Japão, em máximos históricos. Portugal financia-se atualmente a cerca de 3,6% no prazo de 10 anos.
Para se perceber estes movimentos, convém entender a Yield Curve (o gráfico desta semana é a Yield Curve das obrigações com rating AAA na Zona Euro).
A ponta de curto prazo (do lado esquerdo) é definida pelos bancos centrais. A Reserva Federal mantém a sua taxa entre 3,50% e 3,75% há cinco reuniões consecutivas e o BCE tem a taxa dos depósitos nos 2,25%, depois da subida de junho. A ponta de longo prazo (centro e lado direito do gráfico) não é decidida por nenhuma autoridade, resulta do preço que os investidores exigem para emprestar dinheiro durante 10, 20 ou 30 anos, e nesse preço/yield exigida entram variáveis como a inflação futura esperada e, por exemplo, a dimensão dos défices dos Estados. Portanto temos os bancos centrais com nenhumas ou ligeiras subidas dos juros nos últimos meses, mas o mercado tem vendido dívida de longo prazo.
As razões acumulam-se. A inflação americana estava em 3,4% em julho, acima da meta de 2%, com a energia a subir quase 15% em doze meses devido à guerra no Médio Oriente. Os défices mantêm-se elevados e sem um plano anunciado de redução. Só em juros, o Estado americano pagou 963 mil milhões de dólares nos primeiros dez meses do ano fiscal, cerca de 15% da despesa federal.
A isto junta-se também um fator mais recente, a onda de emissões de dívida das empresas tecnológicas para financiar centros de dados, que competem com as obrigações dos Estados pelo dinheiro dos investidores.
Na Europa, os argumentos são outros, mas o resultado é semelhante. Temos energia mais cara, maior despesa em defesa e expectativas de novas subidas do BCE, com uma subida já na reunião de setembro dada praticamente como certa pelos mercados.
A subida das yields produz efeitos contrários em quem já investiu e em quem irá investir em obrigações no futuro. Se as yields continuarem a subir, quem já tem obrigações em carteira registará perdas, porque o preço destes títulos desce quando as yields sobem. Se estabilizarem ou recuarem, acontece o inverso, e com maior amplitude nas obrigações de prazos mais longos.
Com os mercados acionistas a valorizarem a dois dígitos, uma remuneração de 4% a 6% em dívida pública parece pouco interessante. Mas, historicamente, é nas recessões e nos mercados em queda que as obrigações justificam o lugar que ocupam numa carteira. As taxas descem, os preços das obrigações sobem, compensando parte das perdas registadas nas ações.
Entretanto, os investidores têm procurado ativos que não dependem da confiança em nenhum Estado. No último mês, o ouro valorizou 13,7%, a prata 19,6% e a bitcoin subiu 25,4%. No sentido inverso, o dólar perdeu 2,3%. O raciocínio dos investidores é que se os défices não descem e a inflação mantém-se acima do objetivo, o dinheiro vai perdendo valor, preferindo ativos cuja quantidade não pode ser aumentada por decisão política.
